ouça

Me escuta, vou ser breve. Amanhã eu acordo às 6. Mas hoje eu preciso falar. Assim como a lua precisa que o sol derrame seus raios nela para que a gente possa viver do jeito que a gente vive na terra. Eu preciso falar.
Eu preciso falar sobre o quão ruim é a falta de confiança que tens em mim. Eu preciso falar o quão mal eu me sinto por todos os erros que eu cometi com você. Eu preciso falar sobre todos os textos da Matilde Campilho que eu a ouvi recitar hoje e que me empurraram pro bloco de notas. Eu precisava agradecer a quem me apresentou a essa autora. Poetisa. Aliás, o que você costuma escrever no seu bloco de notas? O que costuma fazer quando essa ansiedade entra no seu peito? Aquela vontade de deitar sozinho como se pudesse se enrolar em volta de si mesmo, você tem? Quais suas vontades?
É incrível a capacidade que temos de achar que conhecemos uns aos outros. Eu não conheço ninguém. Eu não conheço você. Eu não sei se você prefere o azul ou o verde. Eu não sei se você já quebrou o seu braço enquanto corria na rua. Você corria na rua? O que você faz quando sente a falta de alguém? Eu sinto sua falta. Das noites que me contavas todas aquelas histórias em seu microfone. Tu lá. Eu cá.
A última primavera não fora tao boa quanto a que a antecedera. Talvez por falta de flores. Mas pela nossa distância. Pela saudade. Pela falta de confiança. Queria que as máquinas do tempo funcionassem de fato. Como a imaginação de uma criança criativa. De qualquer forma, eu ainda estou aqui. Você ainda está aí. Eu não sou bom em escalas. Mas sei que nossa distância não é nem um grão de areia na vastidão do universo. Estamos mais perto do que imaginamos. Se tudo der certo, talvez esse inverno seja menos frio. A primavera seja mais florida. As águas de março já foram mais calmas.

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Tato

Quero com meus lábios
atirar-lhe flores
No pé do seu ouvido
Em forma de poesia sussurada

Vou tatuar em tuas costas
Minhas cantigas
Com minhas unhas afiadas
Em pleno transe

Com meus pés aprendi
Caminhando por suas curvas
-Mesmo fora de escala-
Sobre a distância e,
Por conseguinte
Sobre a saudade

Nadarei com minhas mãos
No emaranhado do seu cabelo
Para que sintas o tato
Do meu cafuné
Até que seus olhos descanse

Vou despir minha alma
Deixá-la nua
E mostrar que ela aguenta
Qualquer frente fria
Inclusive a do seu coração

Ricardo Paixão

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foi-se

tudo certo
sinto o que eu me permito sentir
cavo o poço
na profundidade que eu posso cair
nenhum poço é tão fundo
que eu de lá não saia
se a saudade aperta
corro pra afrouxar

se pergunto como está
seu tudo bem é meu afago
a notificação das suas mensagens
são minhas doses de morfina
ou nicotina diária

tem gente que é viciado em álcool
cada um com seu vício
talvez o meu seja você
“fôra”

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garotas

meu corpo
nada mais é
que uma parede
algum tipo de redoma
onde guardo em minhas envolturas
um amontoado de
sentimentos ânsias e anseios
emoldurado em toda
placenta ou algo menos bucólico
com conchas do mar
coladas com cascorez

se como dizia arnaldo antunes
“o escuro é metade da zebra”
sou dela um todo
sou terra e minha lua,
meu anjo da guarda
luz do
crepúsculo

elas são
todo medo e toda alegria
são de todos os jeitos
tem de tudo um pouco
algumas são conhecidas
outras mais tímidas
vivem em minhas
molduras

tem dia que
são fortes
tem dias que são azuis
mas nenhuma resiste ao céu de domingo
após alguma rebelião interna

Ricardo Paixão

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(outro sem título)

Queria mais um vez ouvir
Este teu silêncio misterioso
Beijar o teu sorriso bobo
Me embebedar do seu olhar
Queria ficar mais três dias
Debaixo da chuva fria
Numa barraca com colchão de ar
Furado e remendado
Com o seu toque indefinido
Entre macio e grosso
E o cheiro de perfume
Sempre no lugar
O seu jeito de estar
Sempre por perto
Bem arrumado
Busco rever o encontro
Do seu jeito malandro de olhar
Com o sorriso maldoso

E se pôs o sol por detrás das montanhas
E eu me pergunto
Por onde você se pôs

Ricardo Paixão

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(sem título)

eu sou uma bagunça
de sentimentos e ansiedades

e quando vem
a noite no meu quarto
a única luz
é a luz da lua

nessa escuridão
que danço
é sua mão
que eu seguro
no seu colo
que eu procuro
afeto e calmaria

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Taurus

– rendição –

como foi dito
cria-se a própria tempestade
mas sem saber lidar com isso

afortunados os capazes de sofrer
e de aprender a
reconhecer o valor
da felicidade radiante
depois da escuridão

tome uma taça de vinho
pra tentar liberar
toda essa tensão
tristeza ou qualquer
dor emocional
descategorizada
se essa palavra existe de fato

nem juntando todas as moedas
não há tintas, pincéis e parafusos
nem solda ou encaixe
muito menos cola
que torna possível criar
uma máquina
que leve de volta para o momento
antes dos erros

pede-se para
olhar no olho
passa-se o braço
pela cintura
corpo a corpo
no toque dos lábios
os beijos são
uma degustação do que é
infinito

CONFIA

Ricardo Paixão

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